Após longa queda, cá estou, no fundo do poço. Depois de um longo período me vejo novamente ereta. Os olhos se abrem para a luz, começo de tudo. Pois só agora consigo observar a cadência dos tijolos, a estrutura afunilada, a água que bate em meus tornozelos. O que antes era borrão e adrenalina, hoje se torna lucidez. Soberano é aquele que consegue chegar ao fim, só ele possui a sabedoria de quanto mede o poço. Agora se apodera de um conhecimento vital, a queda há muito desconhecida, um estudo particular desenhado pelo todo.
O ser no fundo do poço
CENA
Não, não quer, o corpo não quer perder o estado de permanência, é queda já há muito tempo. Tem medo de deixar o fim, refazer o caminho inverso. Morreu foi no descompasso, insuficiente ternura. O batimento no contratempo dos dias que viveu. Sempre ritmado, marcando o tango e a polca que mal sabia dançar. Finalmente a vejo. Não sou a única, você também escuta. Seu corpo está entregue, dispara pelo chamado que tanto esperou. Feliz, despenca.
Textos cortados - BLOCO 5
Por oito vezes ela deu seu corpo, aqueceu seu sangue. O leite, antes domínio dos bois, alimentou aqueles que os reencarnariam. Por oito vezes um vazio, um poço sem fim, uma vontade chorar. Meus passos a seguem de novo pelo corredor. Posso perceber seus pés ligeiramente tortos, as pernas bambas, conhecedoras profundas daquele caminho. Sigo-a por de trás…sua sombra balança. Por mais que tente meus dedos nunca alcançam suas costas. Ela escuta o seu nome e não há nada que a impeça.
Textos cortados - BLOCO 4
Busco pelo poço, por seus definidos contornos, o quero como ninguém. Bastaria isso, em mim, apenas acreditar? Cruzo o corredor a procura do corpo que deixou a cama, os lençóis frescos marcam o frescor da madrugada. Meus pés afundam no chão de taco, peças de perfeito encaixe, que um dia já tiveram o formato de estrelas. Desvio dos buracos…um vulto carregado de desejo e inquietação. Pode ser o poço muito mais raso do que imagino. A queda, apenas um pequeno empurrão, direto para o chão. Temo voltar aquela noite e não escutar som nenhum. Nem das imperfeições me lembro. Nem das mais marcantes.
Textos cortados - BLOCO 3
O poço se conecta aos veios da terra, comunica-se com os restos ou reencarnações. Útero terrestre onde a lama da podridão fertiliza os fetos que por ventura ali sobrevivem, tornando-os raras intervenções. Por isso é lugar pra onde vão todos os restos da humanidade, tudo aquilo que não presta, mas também é onde o esterco fertiliza o ser, um brejo às escuras. Só os santos são perfeitos querida, só eles foram capazes de dar asas aos bois, e só eles foram capazes de criar aquele que poderia tira-las. Se certeiro veio o homem ao mundo, na duvida o mesmo foi criado. Se o primeiro homem foi ninado com cantos de aboio, quem então cantou para os bois?
Textos cortados - BLOCO 2
Encontro-me em outro lugar. Voce não o conhece, eu mesma mal o reconheço. Sugiro que fique atento. Sei que o caminho aqui é turbulento e tem grande poder de sedução. Por isso evite as figuras que encontrar pelo caminho, elas pertencem a mim, e infelizmente, só a mim obedecem. O que vê é um porão de despropósitos…só meu. Se o compartilho é porque…é somente da luz dos outros que as traças da memória ganham perenidade, e é na eternidade estética que as resolvi desempoeirar. Desculpe se o que deixei para trás foi só aquele bilhete, mas a verdade é que não programei tal busca. Nesse estudo vale menos a queda do que o próprio pulo. Atirar-se no poço e ir contando em voz alta todos os seus tijolos. Foi assim que encontrei minha avó. Posso ousar dizer que no princípio fora o boi. O couro tremulo agüentou um sol que hoje não se imagina, e séculos permaneceu regado ao pó dos ossos fracos. De tanto clarão a luz pintou de branco o curto pelo, e purificou o leite que antes era sangue. No princípio apenas o boi, e posso ousar dizer que esse se tornou santidade. Por ter o olho mais terno e ameaçador os anjos resolveram lhe dar asas, tornando a boiada alada. No principio era tudo lindo, uma terra em que o gado bebia leite e migrava de continente. Foi então que numa noite de chuva o boi rei, já prenho deu a luz. Na vagina abissal do mundo nasce um ser agora humano. Do boi nascera o homem, o mesmo ser mas sem a mesma ternura. Já a prole tomou conta de seu criador. Os bois atrelados ao chão perderam suas asas, e logo ficaram restritos a poeira e ao suor. Posso ousar dizer que na memória primeira se tem antes a consciência do engolir do que do regurgitar. Se há tanto medo de cair na escuridão deve ser pelo receio do boi voltar e la fecundar novamente. Quando a queda é longa essa vira um estado de permanência, e o corpo então…para de cair. É nesse momento que se devem ter as memórias mais puras. Na falta contínua de referência o corpo cede à suas forças naturais e a mente encontra seu estado mais solene. Assim imagino. Minha mãe me contava que em sua casa de infância havia um poço. Esse poço, dentre as circunstâncias, fora engolido pela própria casa, e já no mês de setembro se encontrava no meio do corredor, destruindo o assoalho. Quando os cômodos já então silenciavam na noite, e as crianças forjavam um sono profundo, ela me conta: ouvia-se uma voz solene chamando pelos corredores. Albaaaaaaaaa, dizia. Seguindo os rastros daquele chamado, o corredor te leva até o poço. Daquela garganta úmida feita parte barro parte concreto saia uma voz chamando pelo nome de minha avó. Assim minha mãe me contava, o poço chamava por Alba. Se por princípio tenho voltar àquela noite é porque algo tem a me contar. Quero analisar seus passos, escutar o início do som, a nota que te acordou e fez rubra de novo suas bochechas.
Textos cortados - BLOCO 1
CENA
Dispo meu filme como quem descobre na nudez sua essência. Partes jogadas, dilaceradas ao chão, sangram para mostrar que o ser é vivo. Como pode um filme surgir de palavras? Estranho, veio a mim antes em poemas, prosa. Veio antes como historia já existente, materializada em linhas por aqueles que as contavam. Depois precisei aparar as raízes, cultivar apenas o que dali brotou. Difícil é a tarefa do jardineiro de cortar os cabelos, de apreciar o fruto da figueira. Segue então textos antes pensados como narração. Um narrador que hoje não mais existe, e que na verdade nunca existiu. Procurava uma forma de camuflá-lo, sem perceber que na verdade só existiria inflado, a grande olhos, e com grande personalidade. No ensaio o eu não basta ter apenas algo a falar, é necessário ser o assunto principal.
Da metodologia do roteiro: textos cortados
CENA
O ensaio, anteriormente deixado para trás, reaparece agora cada vez mais vivo, e o conceito benjaminiano do un-weg tornou-se estranhamente palpável. Pois essas coisas só acontecem em livros, pensava, e nunca que verdadeiramente estaria eu a andar em círculos. Não só aqui estou, mas me impressiona o tanto que cada volta, mesmo que errada, faz o novo olhar torna-se imprescindível para o processo. Pois que da nova volta, um novo erro, e desse se parte para um novo caminho. Esse filme já foi diferentes sombras, e percebo que cada qual contribuiu para o que é hoje. Ainda apenas no âmbito da idéia meus nervos quase se esgotam de tanta ansiedade – é preciso jorrar para fora. A areia ainda permanece branca e simplesmente não suporto mais encará-la. Sinto-me mais despreparada do que nunca, espero estar na volta errada, aquela que será seguida pelo frescor da mente e da certeza criativa. Talvez esses dois termos simplesmente não combinem.
Retorno do Ensaio
CENA
Preciso exercitar-me, fazer soltar da pedra o sentido que se escondeu. Pra mim tanto faz, escrevo como quem pensa no dia de amanhã, inquieto, mas facilmente a se distrair. É que realmente me ausentei por aqui, achei que alimentava os peixes e esqueci que olho de peixe é igual ao meu. Fiquei com fome, e comi as migalhas pelo caminho. Agora, perdida, me encaminho por outros traços, ou os mesmo vistos por esse ângulo. As antigas referências me esgotam, me mareiam só de pensar. Acho que é assim quando a gente se depara com a verdade de algo criativo, tem de enfrentar cara a cara, não mais pelas beiradas. Cheguei a esse ponto e posso garantir, há menos simplicidade do que adrenalina. Talvez, como tive a sorte de escutar por um ser sensível, esse seja o tal momento de concepção. Talvez por isso os ataques e os enjôos semanais. O filme tem vida própria, é como um filho, ele me disse. E há o medo da prole, por que não. Sempre se tem o medo da prole, de que ela a engula, engula o criador que a regurgitou.
Enjôos semanais
Convoco a todos aqueles interessados a comparecer ao fundo do poço, pois é lá que me sento e espero por meus convidados. Convidados tais que gostaria imensamente de agradecer presença e boa vontade por ali me encontrar, aconselhar, ajudar a construir os tijolos que restam. Espero não ter dificultado o trabalho, pois se puxei a única corda que ligava o fundo ao céu é porque para cada um a descida é diferente, é preciso encontrar maneira própria para em seu poço adentrar. Se eu gaguejar finjam que é a ressonância do oco, que a voz se repete diversas vezes num eco a procura do topo. Agradeço especialmente ao meu orientador Cléber Eduardo, a presença de Nanci Barbosa, Renata Gomes, e de dois convidados super especiais, Cesar Zamberlan e Carlos Nader.
30/05 - Banca Qualificação